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Quanto cobrar por sessão de psicoterapia: como calcular o seu valor

Equipe EloSessão · 6 de outubro de 2026 · 10 min de leitura

Muita gente define o valor da sessão olhando o que os colegas cobram. Funciona até o primeiro mês com férias, faltas e imposto para pagar. A conta fica mais tranquila quando você parte do que o consultório custa e de quantas sessões realmente acontecem.

O Código de Ética dá o enquadramento. No art. 4º, ele diz que, ao fixar a remuneração, a psicóloga leva em conta a justa retribuição pelo serviço e as condições de quem é atendido, estipula o valor conforme as características da atividade e o comunica antes do início do trabalho, e assegura a mesma qualidade independentemente do valor acordado. Dentro disso, o número é seu.

Passo 1: some o que o consultório precisa por mês

Separe três blocos. Eles formam o valor mensal que precisa sobrar para você depois dos impostos.

Custos fixos. Existem mesmo que você não atenda ninguém naquele mês: aluguel ou sublocação de sala, condomínio, luz, internet, anuidade do CRP dividida por 12, sistema de gestão e plataforma de vídeo, contador, supervisão e terapia pessoal, formação contínua dividida por 12. Se a sua prefeitura cobra ISS em valor fixo, ele também entra aqui (veja o Passo 3).

Pró-labore. O erro mais comum é esquecer de si. Defina quanto você precisa retirar por mês para viver. Esse valor entra na conta como custo, igual ao aluguel.

Reserva. Autônomo não tem 13º nem licença paga. Separe um valor mensal para imprevistos: doença, um mês bem mais fraco que o normal, um equipamento que quebra.

Deixe de fora deste passo dois itens, que entram depois: os custos variáveis (os que existem por sessão, como material ou deslocamento) e os impostos que são porcentagem da receita.

Passo 2: conte as sessões que realmente acontecem

Ninguém atende 40 horas por semana durante 52 semanas: há prontuário, mensagens, supervisão, férias e feriados. Para estimar:

  1. Quantas sessões por semana você consegue fazer sem se esgotar?
  2. Quantas semanas por ano você realmente trabalha, descontando férias e feriados?
  3. Qual parte das sessões marcadas acaba não acontecendo por falta ou cancelamento?

Multiplique as três respostas e divida por 12. Assim as semanas de férias já ficam distribuídas ao longo do ano: nos meses trabalhados entra um pouco mais do que você precisa, e essa sobra paga os meses de descanso. Por isso não some de novo um valor "para as férias" no Passo 1, ou você contará a mesma coisa duas vezes.

Se as faltas pesam muito na sua agenda, vale ter uma política clara para elas. Falamos disso em Faltas e cancelamentos na terapia: como criar sua política.

Passo 3: entenda os impostos antes de pôr na conta

Aqui não existe uma porcentagem única que sirva para todo mundo.

Atendendo como pessoa física

  • Carnê-Leão. É o imposto de renda mensal sobre o que você recebe de pessoa física. Ele é calculado pela tabela progressiva mensal, com faixas que vão de isento a 27,5%, sobre a base que sobra depois das deduções do livro-caixa e do INSS. Em 2026 há ainda uma redução que zera o imposto quando os rendimentos tributáveis do mês ficam até R$ 5.000,00 e diminui gradualmente até R$ 7.350,00. Ou seja: o peso varia mês a mês. O passo a passo está em Carnê-Leão para psicólogos, e os recibos, em Receita Saúde.
  • INSS como contribuinte individual. Pela tabela de 2026 do INSS, o plano normal é de 20% sobre um salário de contribuição entre R$ 1.621,00 e R$ 8.475,55 (de R$ 324,20 a R$ 1.695,11 por mês). O plano simplificado é de 11% sobre o salário mínimo (R$ 178,31), vale para quem não presta serviço a empresas e não dá direito à aposentadoria por tempo de contribuição.
  • ISS. É municipal, e cada cidade tem sua regra. Em São Paulo, o psicólogo autônomo pessoa física é isento desde 2009, pela Lei Municipal 14.864/2008. Em Belo Horizonte, o profissional autônomo de nível superior paga um valor fixo de R$ 332,39 por trimestre em 2026. Consulte a prefeitura da sua cidade.

Atendendo como pessoa jurídica

Existe a opção de abrir empresa, com outras regras e outros custos. Se faz sentido para você, quem diz é o seu contador.

Como chegar à sua alíquota efetiva

Peça ao contador uma estimativa da alíquota efetiva: o total de tributos que você paga em um mês típico dividido pela receita bruta desse mês. Ela já embute as faixas do Carnê-Leão, as deduções e o INSS.

Um cuidado: o que é valor fixo (o INSS do plano simplificado, quem contribui pelo teto, um ISS fixo) pode ir para os custos fixos do Passo 1 ou para a alíquota, nunca para os dois.

Passo 4: monte a conta

Imposto é porcentagem do que você recebe, não um valor que se soma no fim. Se você só acrescenta "R$ X de imposto" ao valor da sessão, o imposto incide também sobre esse acréscimo e a conta não fecha. Por isso a fórmula tem duas etapas:

  1. Valor líquido por sessão = (custos fixos + pró-labore + reserva) ÷ sessões realizadas por mês.
  2. Valor da sessão = (valor líquido por sessão + custo variável por sessão) ÷ (1 − alíquota efetiva).

Um exemplo, só para mostrar o raciocínio

Os números abaixo são ilustrativos. Use os seus.

Item Exemplo
Custos fixos do mês R$ 2.900,00
Pró-labore R$ 6.000,00
Reserva R$ 1.000,00
Total mensal R$ 9.900,00
Sessões realizadas 20 por semana × 44 semanas × 0,9 = 792 no ano, ou 66 por mês
Custo variável por sessão R$ 6,00
Alíquota efetiva estimada pelo contador 20%
  • Valor líquido por sessão: R$ 9.900,00 ÷ 66 = R$ 150,00.
  • Valor da sessão: (R$ 150,00 + R$ 6,00) ÷ 0,80 = R$ 195,00.

A prova: de R$ 195,00, saem R$ 39,00 de tributos (20%) e R$ 6,00 de custo variável, e sobram R$ 150,00. Vezes 66 sessões, são os R$ 9.900,00 do mês. Se você tivesse somado 20% em vez de dividir, cobraria (R$ 150,00 + R$ 6,00) × 1,20 = R$ 187,20. Tirando R$ 37,44 de tributos e R$ 6,00 de custo variável, sobrariam R$ 143,76 por sessão, e faltariam R$ 411,84 no mês.

Esse resultado é o piso. O valor final pode ficar acima, conforme sua experiência, formação, região e tipo de atendimento.

A tabela de referência do CFP e da Fenapsi

Existe uma referência nacional: a Tabela de Referência Nacional de Honorários dos Psicólogos, com fonte CFP e Fenapsi e elaboração do DIEESE. Os valores são corrigidos pelo INPC-IBGE.

A edição mais recente está no site da Fenapsi, em PDF: valores atualizados até junho de 2026, com vigência em 1º de julho de 2026. Para psicoterapia individual, ela apresenta uma faixa:

Psicoterapia individual Valor
Limite inferior R$ 235,34
Limite médio R$ 340,74
Limite superior R$ 403,45

A tabela não define a duração da sessão nem explica cada coluna além desses nomes. Atenção também a um descompasso: até a data desta revisão, a página do CFP ainda apontava para a edição de julho de 2025, com R$ 225,58, R$ 326,61 e R$ 386,72.

Dois cuidados ao usar a tabela:

  • Ela é uma referência, não uma obrigação. O CRP-SC explica, nas suas perguntas frequentes, que os valores não são obrigatórios.
  • É um número nacional. O custo de uma sala em capital não é o do interior. A sua conta vem antes; a tabela serve para conferir se o resultado está muito fora da realidade da profissão.

Valor social sem desvalorizar o seu trabalho

O próprio art. 4º fala em considerar as condições de quem é atendido, e o CRP-SC confirma que atender a custo social é permitido, desde que a qualidade seja a mesma. A Resolução CFP nº 13/2022, no art. 4º, também veda condicionar o tempo de sessão ao honorário: valor menor não significa sessão mais curta.

  • Defina um número de vagas. Por exemplo, alguns horários por semana com valor reduzido, para a decisão não ficar no improviso.
  • Tenha um critério. Renda familiar, desemprego, estudante. Escreva qual é e aplique igual para todos.
  • Feche a conta antes. As vagas sociais precisam caber na margem acima do piso, e não comer o pró-labore.
  • Não use o preço como chamariz. O art. 20, alínea d, proíbe usar o preço do serviço como forma de propaganda, e o CRP-SC observa que anunciar "custo social" pode cair nessa vedação. O valor reduzido se combina na conversa, não no post. Mais em Publicidade do psicólogo no Instagram.

Quando e como reajustar o valor

Seus custos sobem todo ano; se o valor fica parado, você ganha menos a cada ano. Sinais de que chegou a hora: a conta do Passo 4 não fecha mais, a agenda tem lista de espera, ou faz mais de um ano do último reajuste.

O que as regras dizem

  • O Código de Ética (art. 4º, alínea b) pede que o valor seja comunicado antes do trabalho a ser realizado.
  • A Resolução CFP nº 13/2022 (art. 3º, I, b) exige contrato com a pessoa atendida, verbal ou escrito, que deixe claros os honorários, entre outros pontos.
  • O Código de Defesa do Consumidor (art. 6º, III) garante informação adequada e clara sobre o preço.

Nenhum desses textos fixa um prazo mínimo de aviso. O prazo é algo que você define e registra no contrato.

Na prática, com quem já está em atendimento

Nossa sugestão:

  • Preveja o reajuste no contrato desde o início, com a época do ano em que ele costuma acontecer.
  • Avise por escrito, com folga. Pelo menos um mês antes, com o novo valor e a data exata a partir da qual ele vale. Guarde o registro.
  • Nunca cobre retroativamente. Sessões já realizadas e pacotes já pagos ficam no valor combinado.
  • Considere manter o valor atual por um período para quem já está em atendimento, ou reajustar em etapas. Seja coerente e aplique o mesmo critério a todos.
  • Abra espaço para conversa. Se alguém não puder acompanhar, avalie o caso dentro do seu critério de valor social ou ajude com um encaminhamento. Uma mensagem curta e direta basta; não precisa pedir desculpas por cobrar pelo seu trabalho.

Para fechar

  1. Some custos fixos, pró-labore e reserva, e divida pelas sessões que realmente acontecem no mês.
  2. Acrescente o custo variável e divida por (1 − alíquota efetiva), estimada com o seu contador.
  3. Compare com a tabela de referência, sem tratá-la como regra.
  4. Planeje as vagas de valor social dentro da sua margem.
  5. Reajuste com aviso por escrito, data definida e sem cobrança retroativa.

Refaça essa conta pelo menos uma vez por ano. O valor certo da sua sessão acompanha o seu consultório.